A Revolução Científica

Em que medida as idéias de Descartes e Bacon estão em suas bases?

por Gilberto Miranda Júnior


Caracterizando a Revolução Científica


A revolução científica, que marca o início da modernidade propriamente dite, caracteriza-se pelo interesse humano voltado para a técnica e ciência experimental, através de uma metodologia que assegure um conhecimento que tenha um desdobramento prático para a sociedade e para a vida humana no mundo. O deslocamento da ciência para seus resultados se opõe frontalmente a uma ciência apenas teorética (contemplativa), calcada na noção aristotélica de demonstração lógica de verdades universais e necessárias em detrimento da experiência, assumida pela escolástica a partir do sec. XII. O período chamado de Revolução Científica é, em geral, delimitado até Newton, o ápice do mecanicismo.

O Renascimento e o Humanismo, que marcaram esse grito de liberdade humana frente às verdades aceitas por autoridade, trazem como conseqüência dessa emancipação, uma nova forma de fazer ciências, através da necessidade do desdobramento técnico daquilo que prediz; inclusive como forma de validar-se como conhecimento verdadeiro e seguro.

O ponto de partida dessa nova ciência está na obra “Sobre a Revolução dos Orbes Celestes”, de 1543, de autoria de Nicolau Copérnico. Essa nova ciência, no entanto, parece-nos ter suas condições de possibilidade calcadas já no século XII, a partir da reintrodução das obras de Aristóteles e seus intérpretes árabes na Europa. O que esse novo espírito científico traz de novo é um método que se volta a Platão e aos pitagóricos, dando ênfase à explicação matemática do mundo.

Antes de Copérnico revolucionar a visão do mundo e a localização da terra sob os protestos do dogmatismo religioso, a visão do universo era herdada do “Tratado do Céu” de Aristóteles, a qual foi melhorada, mas não radicalmente modificada por Ptolomeu: o Universo tinha a Terra como centro.

Copérnico, matematizando o espaço, geometrizando o movimento e validando seus cálculos pelo que eles poderiam prever como fenômeno a ser observado, subverte toda a ordem cósmica escolástica que sustentava a cosmovisão vigente. Resultado: a hierarquia e a autoridade estavam quebradas.

Mesmo sendo a influência aristotélica a responsável pela ênfase na investigação da natureza, a grande inspiração da Revolução Científica do sec. XVI foram Platão e o neoplatonismo. A rejeição a Aristóteles pelos modernos se dá principalmente pelo modelo geocêntrico refutado por Copérnico e, sobretudo, pelo abuso da escolástica no uso da lógica aristotélica na demonstração de verdades universais e necessárias que não tinham sua base ou mesmo sua confirmação na observação rigorosa da natureza.

Até o sec. XVI, e tendo influência além da própria revolução científica, toda consideração teórica da natureza tinha como pano de fundo (direcionamento do olhar e do dizer; um Logos), uma explicação a partir de pressupostos teleológicos ou metafísicos. O modelo cosmológico aristotélico se encaixava totalmente em suas pressuposições metafísicas, mas não “salvavam os fenômenos”, contradizendo o que as observações astronômicas e os cálculos matemáticos revelavam sobre o céu; demonstrado pelos trabalhos de Ptolomeu e os astrônomos de Alexandria.

O espírito da renascença e do humanismo na modernidade voltara a postura humana para uma atitude de valorização do espírito humano; no discernimento humano como capaz, por si só, de chegar à verdade através da razão, independente de autoridades ou de revelações místicas e a única forma de se chegar a esse discernimento seria através de um método estabelecido na dúvida e na experimentação, e não na sedução de uma verdade que se revela sozinha e que independa do que possa ser demonstrado.

Um dos pontos de ruptura para o advento da ciência moderna foi justamente a questão de “salvar os fenômenos”. As mudanças promovidas pelo modelo ptolomaico e alexandrino, alternativos ao de Aristóteles, desfaziam o ideal de perfeição do Universo, mas assegurava que os resultados pudessem ser observados, garantindo, assim, ampla aceitação. No entanto São Tomas de Aquino em sua Suma Teológica argumenta exatamente o oposto, isto é, que quem deve ser salvo é o modelo aristotélico, pois ele é deduzido pelos primeiros princípios (a Metafísica), portanto mais verdadeiro. São Tomas rejeita uma hipótese verificada como critério de aceitação, já que a observação, por definição, é limitada e imperfeita e não pode superar princípios metafísicos estabelecidos racionalmente, nem tampouco verdades universais e necessárias logicamente deduzidas[[#_ftn1|[1]][1].

Por outro lado, o ícone do renascimento e do humanismo, Da Vinci, decreta o espírito da revolução científica nos seguintes termos:
"A sabedoria é filha da experiência. A experiência jamais engana; e os que se lamentam dos seus logros deveriam antes lamentar-se da sua ignorância porque pedem à experiência aquilo que está para lá dos seus limites. Em contrapartida, pode o juízo enganar-se sobre a experiência; e para evitar o erro não há outra via senão reduzir todos os juízos a cálculos matemáticos o servir-se exclusivamente da matemática para entender e demonstrar as razões das coisas que a experiência manifesta. A matemática é o fundamento de toda a certeza." Leonardo da Vinci – apud in (ABBAGNANO 1970, Origens da Ciência, p. 9)
E, portanto, ela seria, longe das mãos de uma autoridade única, “autônoma, pública, controlável e progressiva” (REALE e ANTISERI 2002, p. 190), amealhando dentre suas principais características, o necessário desdobramento técnico e empírico de suas predições.

Duas transformações concomitantes, segundo Danilo Marcondes[[#_ftn2|[2]][2] levaram à revolução científica: 1. A validação do modelo heliocêntrico feita por Galileu a partir dos cálculos de Copérnico e 2. A valorização do método experimental, transformando a ciência numa atividade ativa e não mais contemplativa.

A seguir, tentaremos estabelecer em que medida as idéias de Descartes e Bacon consolidaram o novo espírito científico da modernidade e foram determinantes filosoficamente para caracterizar esse movimento chamado Revolução Científica.


O Método Cartesiano


A obra de Descartes, mais especificamente o seu O Discurso do Método, pode ser vista como uma sistemática reflexão sobre seu tempo através de uma tomada de posição específica frente a uma crise que, a partir de seu posicionamento, inaugurou uma nova epistemologia e uma nova maneira de olhar a realidade. Não é por acaso que ele é tido como fundador da filosofia moderna.

Assumindo de certa forma o espírito humanista de sua época e centralizando a capacidade racional humana na busca do conhecimento, Descartes preocupou-se fundamentalmente em construir um modo para que pudéssemos chegar a um conhecimento seguro. Esse modo é o caminho, o cogito.

E é com esse mote que, na modernidade, Descartes introduz a temática do sujeito que conhece como fundamento de sua epistemologia. Essa temática irá deslocar o questionamento sobre o Objeto que se mostra a uma razão capaz de captar a ordem efetiva das coisas para o Sujeito que volitivamente se direciona para o Objeto na intenção de captar essa ordem. A preocupação moderna, inaugurada por Descartes é como esse Sujeito pode assegurar um conhecimento verdadeiro e seguro do Objeto.

Descartes então parte da premissa que, antes de voltar-se ao Objeto, esse Sujeito precisa voltar-se para si mesmo e fundamentar nele a possibilidade desse conhecimento. Quem é esse sujeito que conhece? Quais suas potencialidades e limitações? É possível sair do ceticismo e alcançar a verdade sobre algo? Eis os pontos tematizados a partir de Descartes em seu Discurso do Método.

A perspectiva ontológica que Descartes tematiza o Sujeito do conhecimento só seria abandonada pelo empirismo e depois por Kant. Descartes confia na capacidade fundante da Razão como possibilidade de conhecer e descarta a possibilidade de qualquer conhecimento seguro a partir do sensível, reeditando a tradição iniciada em Platão.

Descartes liberta a epistemologia da fundamentação teológica e centraliza no racionalismo toda a nossa possibilidade de conhecimento, inclusive o teológico. Porém postula uma participação divina em nós, e a exemplo de Platão, separa o Sujeito em duas instâncias substanciais que forma o Ser Humano: a res cogitans e a res extensa. A fundamentação racional desse dualismo contribuirá para avanços científicos, onde a noção de corpo como uma máquina a serviço da alma racional, irá proporcionar a permissão para autópsias.

Descartes chega a seu método assumindo uma postura cética, porém postula um ceticismo que não duvida para negar, e sim para chegar através da dúvida metódica ao verdadeiro conhecimento. Seu método estabelece que tanto os sentidos quanto a percepção não se configuram como um conhecimento seguro, e estabelece o caminho para esse segurança por quatro preceitos básicos:

1. Evidência: aquilo que aparece imediatamente ao entendimento;
2. Análise: divisão do problema em partes menores;
3. Síntese: ordenar o pensamento do mais simples ao mais complexo;
4. Evidência do Conjunto ou Intuição Geral: enumeração dos dados e revisões gerais.

O caminho cético proposto por Descartes procura desestruturar a própria postura cética ao usar o ceticismo para buscar algo que fundamente a possibilidade do conhecimento seguro. Ela, portanto, é propedêutica. Para isso ele cria o argumento do Cogito, cujo objetivo é estabelecer os fundamentos do conhecimento e encontrar uma certeza imune a qualquer questionamento cético.

Propondo esvaziar-se de todas as crenças e conhecimento adquiridos, Descartes encontra a questão que garante a certeza segura de algo: “Penso, logo existo”. A existência, a partir dessa constatação, se torna a pedra basilar da certeza de que podemos conhecer de fato algo sem qualquer tipo de questionamento que possa negá-lo. Se soubermos que pensamos, é por que necessariamente existimos.

O Cogito, portanto, a partir da descoberta de uma realidade primária, necessária e indubitável, nos dará a base para a construção do conhecimento possível humano e assim, se torna uma das bases científicas da nova ciência a ser feita. Com Descartes, fundamentalmente, a ciência ganha um impulso decisivo calcada nos dois princípios que melhor caracterizam seu pensamento: o RACIONALISMO e o MECANICISMO.


O Experimentalismo Baconiano


Junto com Descartes, Francis Bacon é considerado o fundador do pensamento moderno por excelência, pois defende veementemente o método experimental como balizador da ciência em detrimento da ciência teórica (contemplativa) e especulativa. Bacon se constitui na primeira expressão do empirismo e baseia seu método experimental no indutivismo.

Embora possamos vê-lo também como opositor do método dedutivo cartesiano, que pecaria pelo racionalismo em excesso, ambos constituem em seus pensamentos os balizadores do método científico moderno, com ambos promovendo uma ruptura explícita em relação à escolástica aristotélica. Assim como Descartes, a preocupação de Bacon é assegurar um método isento de erros e que leve o ser humano ao conhecimento verdadeiro.

Sua principal obra, o Novum Organum, de 1.620, critica a concepção dedutiva da ciência advinda do Órganon de Aristóteles, e vincula todo conhecimento científico a um desdobramento técnico necessário, até como forma de validar-se enquanto conhecimento seguro.

Bacon enxerga a filosofia moderna como o método pelo qual o homem se libertará da superstição, preconceitos e ilusões, e funda seu pensamento em duas premissas básicas: 1. Pensamento Crítico: como forma de libertar o homem de preconceitos e da autoridade que o impede de progredir e 2. Método Indutivo: como antídoto do modelo especulatório e errático que nos afasta do conhecimento verdadeiro. O que unirá essas duas premissas numa única verdade “orgânica” é o desdobramento técnico da verdade científica adquirida por elas.

Além da diferença entre indutivismo e dedutivismo e entre experimentalismo e racionalismo, o que afasta Bacon de Descartes é o afastamento que ele promove da idéia humanista do homem como microcosmo, assumida no renascimento até Descartes a partir da concepção de Nicolau de Cusa. Com isso o célebre parágrafo em que Descartes abre seu Discurso do Método perde o sentido, e a razão não é mais o balizador neutro que nivelaria todo o conhecimento humano; o balizador é a experiência e a técnica, tornado o conhecimento científico com controle público e progressivo.

A crença no progresso, o método indutivo, a experiência como guia, a ciência aplicada interagindo com a técnica e o controle efetivo da natureza, trariam benefícios à humanidade e, segundo Bacon, não teria outra função para a ciência que não essa. A ciência, a partir de Bacon, balizaria toda sua metodologia nos fundamentos que mais caracterizam seu pensamento: a EXPERIÊNCIA e a TÉCNICA.

Por fim, respondendo a questão foco desse trabalho, podemos dizer que o MECANICISMO, o RACONALISMO, a EXPERIÊNCIA e a TÉCNICA são as medidas em que os pensamentos de Bacon e Descartes constituíram as bases da Ciência Moderna.


Gilberto Miranda Júnior
Taubaté, 08 de junho de 2.009


Obras Consultadas e Citadas


ABBAGNANO, Nicola. História da Filosofia. Tradução: NUNO VALADAS e ANTÓNIO RAMOS ROSA. Vol. VI. 14 vols. Lisboa: Presença, 1970.

MARCONDES, Danilo. Iniciação à História da Filosofia - dos Pré-Socráticos a Wittgenstein. Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar, 2006.

REALE, Giovanne, e Dario ANTISERI. História da Filosofia - Do Humanismo a Kant. 5a. Vol. II. III vols. São Paulo, SP: Paullus, 2002.



Notas


(1) (MARCONDES 2006, p. 150)
(2) (Idem, p. 151)