DE MAGISTRO – AGOSTINHO DE HIPONA - RESENHA


Por Gilberto Miranda Júnior


Introdução


A presente resenha tem por objetivo apresentar a obra De Magistro(1) de Santo Agostinho e fazer uma breve análise de sua Teoria da Linguagem, mostrando como ele concebe a linguagem como representação de sinais e tecendo alguns questionamentos para futuras referências de pesquisa.

É campo de investigação desse autor, inclusive, a identificação de como nossa mente e memória trabalham na representação e entendimento da realidade. A tese agostiniana é emprestada de Platão (só conhecemos aquilo que já sabemos - Teoria da Reminiscência), porém sem assumir a transmigração da alma. Essa tese entra em conflito com a tese da “Tábua Rasa(2)”, onde tudo que aprendemos vem do meio e através da pura e simples experiência; assim como também se contrapõe às concepções de Wittgenstein, cujo processo de aprendizagem lingüística é social, chamada por Medina(3) de abordagem enculturalista.

Não é minha pretensão defender aqui uma ou outra visão, até por que todas têm sustentação em seus argumentos e deixam lacunas que não resolvem todas as questões que giram em torno delas. No entanto, ao longo da explanação, é minha pretensão fazer alguns questionamentos que sirvam de reflexão a possíveis motes de pesquisas futuras; através do entendimento do que Agostinho pensa sobre o assunto.

Irei então, a partir das partes a seguir, contextualizar a produção de De Magistro, resumir suas principais teses e fazer os questionamentos a que essa resenha se propõe.


Contexto de Produção


Difícil entender uma obra numa fase qualquer de um autor se não entendermos sua história e seus feitos antes dela. A obra é o resultado das confluências históricas de quem a fez, e entender essas confluências é conseguir ir mais a fundo na própria obra. Entender Agostinho é entender sua obra, pois cada escrito seu reflete aquilo que ele viveu numa vida repleta de realizações, altos e baixos e, sobretudo, uma veemência que o fez viver com uma intensidade fora do comum tudo o que acreditou.

Agostinho nasce em África, na cidade de Tagasta; atual Souk-Aras da Argélia atual, em 354. A sua busca pelo conhecimento e certezas começa com o início de sua vida no ensino de retórica em Cartago, Roma e Milão. Embora tenha vivido sempre dentro do cristianismo ensinado por sua mãe (Mônica – imortalizada em suas Confissões), entrega-se ao ambiente de professores e companheiros, vivendo intensamente tudo o que a licenciosidade poderia lhe dar. Envolve-se com uma mulher (que a posteridade esconde o nome), nascendo seu filho Adeodato (com quem dialoga no De Magistro) e em Milão tem contato com Santo Ambrósio, conhecendo a filosofia de Plotino. Sua busca o leva do maniqueísmo ao ceticismo acadêmico para depois fazê-lo chegar ao cristianismo eclesiástico, convertendo-se.

Dois anos após seu batismo cristão, que ele faz juntamente com Alípio e seu filho Adeodato, ele tem por objeto um diálogo com Adeodato, que faleceria pouco depois, escrevendo a obra que resenhamos no presente trabalho.

De Magistro circunscreve-se como o ultimo de seus diálogos; de um Agostinho recém convertido em que as culpas do passado e o remorso já haviam sido diluídos, embora em seu coração houvesse ainda uma mácula confessada no Livro 10 de Confissões:

38. Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei! Eis que habitáveis dentro de mim, e eu lá fora a procurar-Vos! Disforme, lançava-me sobre estas formosuras que criastes. Estáveis comigo, e eu não estava convosco!” (AGOSTINHO, Confissões 1996, Cap. 27 - p.285)
Na obra, Agostinho conversa com seu filho Adeodato, brilhante e prodígio, para investigarem a origem e fundamento da linguagem, assim como determinar a possibilidade do aprendizado humano.




Resenha da Obra


Com a célebre pergunta que Agostinho dirige a seu filho Adeodato: “Que te parece que queremos levar a efeito, quando falamos?” (AGOSTINHO, O Mestre 2006, p. 19), o livro inicia dizendo o motivo pelo qual foi feito. Segundo Horn(4), Agostinho interessa-se pela Filosofia da Linguagem em várias fases de sua biografia, tendo feito o tratado juvenil De Dialectica e um escrito perdido intitulado De Grammatica. Neles, ainda segundo Horn, Agostinho permeia a problemática da linguagem, mas, no entanto, não intenciona desenvolver propriamente uma Filosofia da Linguagem, tendo como mote a fundamentação de uma realidade divina no falar e pensar humano. Assim, assinala uma pretensão teológica e não filosófica.

É de minha opinião, no entanto, que a despeito da pretensão teológica, Agostinho sempre se preocupa filosoficamente na justificação racional da fé. O fato de ele partir de um pressuposto de fé para essa justificação, não tira necessariamente o caráter filosófico de sua obra, embora nos obrigue a olhá-la por esse pressuposto para analisá-la e entendê-la.

Em suas obras precedentes ele discute essa questão de forma assistemática e isolada e somente no De Magistro é que ele procura uma coerência que fundamente suas idéias. As grandes perguntas que Agostinho procura responder são: como as palavras podem nos dar conhecimento? Como se chegar à realidade das coisas mesmas se com as palavras só se aprende as próprias palavras? Como as idéias de um homem podem reproduzir-se na alma de outro homem? É possível de fato o ensinamento? A problemática sobre realidade, conhecimento e linguagem então é permeada pela obra através do diálogo mantido com o filho.

Agostinho tenta responder essas perguntas de uma forma dialética com seu filho, e de certa forma dificulta o leitor que espera uma filosofia estruturada e categorizada nos conceitos que expõe. Em dado momento ele inclusive engana seu filho para que ele chegue à sua conclusão; afirmando algo para depois negá-lo na concordância inocente do rapaz. Engraçado notar que, a despeito dos altos elogios que o próprio Agostinho faz da inteligência de Adeodato em Confissões(5), as conclusões do diálogo sempre são levadas a cabo pelo próprio Agostinho, relegando o filho a mero figurante, embora repleto de pertinência no que diz.


Palavras São Signos (Sinais)


Ele parte da tese de que as palavras são sinais. Ao longo do diálogo, porém, Agostinho nega essa tese postulando que os sinais representam a Vontade de quem diz e não as coisas mesmas. Para que essa Vontade, no entanto, represente as coisas mesmas através dos sinais, é preciso que o dono dessa Vontade escute seu mestre interior; o Cristo. Para Agostinho, só no caráter revelador da fé é que a realidade poderá ser percebida e traduzida por uma Vontade que se utiliza de palavras as quais serão atribuídas sinais que se referem às coisas mesmas.

Portanto, não são os sinais que ensinam e nem, portanto, as palavras. Só é possível a mera comunicação através de signos, e não o aprendizado. Se já conheço o significado de um sinal, ele não me ensina nada. Se não conheço o significado, ele próprio também não me ensinará. Ou eu aprendo através da coisa mesma (significada) ou eu já sei de antemão para identificar o signo que a representa.


Aprender é Recordar


Penso que desde que o ser humano é humano a questão da fala, do dizer, está em voltas de se adequar o mais fidedignamente com a percepção humana da realidade. Agostinho, a meu ver, quando questiona a linguagem e a possibilidade de conhecimento através dela, parte do pressuposto que existe uma realidade que pode ser conhecida objetivamente por nós e que o saber é possível. O que ele questiona é apenas se a linguagem daria conta disso, e não se teríamos ou não acesso a isso. A influência platônica, que parte de uma realidade transcendente que confere verdade ao devir a partir de sua participação nessa realidade, é patente na argumentação agostiniana.

Para Agostinho falamos para ensinar (docere), mas ao falar também aprendemos, pois acionamos nossa memória e reafirmamos aquilo que sabemos. No outro, admoestado, ao invés de transferirmos uma idéia a ele, fazemos com que ele lembre o que sabe; angariado num estado anterior à sua própria existência e trazido à tona pela admoestação racional. Excetuando-se a questão da transmigração das almas, não admitida pela doutrina cristã, Agostinho assume a Teoria da Reminiscência platônica para argumentar sobre o inatismo do conhecimento humano.


O Mestre e a Pedagogia do Interior


Se as palavras são sinais que se referem às coisas mesmas e, no entanto, elas nada nos ensinam se já em nós não habitar o conhecimento delas, nenhum homem poderia ser chamado de Mestre, pois ele nada ensina com suas palavras. Mestre então existe em nós, e através dele rememoramos o que sabemos fazendo referência às palavras que ouvimos. E quem habita em nós é Cristo, este é, portanto, segundo Agostinho, nosso Mestre Interior.

Para dar voz a esse Mestre Interior que nos rememora o que sabemos para nos referenciarmos naquilo que ouvimos, é preciso investigar internamente cada palavra dita, procurando sua referência. Esse ato de rememorar é o aprender possível.

Influenciado pela Teoria das Idéias de Platão através de suas leituras de Plotino, Agostinho rejeita o aprendizado oriundo da experiência sensível preconizado pelas filosofias empiristas.

Existem duas categorias de conhecimento cujo aprendizado é adquirido de maneira diversa:

1. Os sensíveis conhecemos pela experiência direta. Assim sendo, o professor nada nos ensina pelas palavras, apenas nos rememora o que já sabemos e nos ajuda a associá-las de forma categorizada, através de outro tipo de conhecimento, abaixo;

2. Os inteligíveis são as relações matemáticas e conceitos genéricos e ideais, como “homem”, “cavalo”, etc. Segundo Agostinho, compreendemos os inteligíveis através da luz divina que habita em nós e ilumina nossa razão. A compreensão é uma iluminação intelectual cujo objeto tem origem em Deus.

Conclui Agostinho então que o Mestre não ensina, não é um transmissor de verdades a serem apreendidas pelo aluno. Mas sua função é muito importante, pois ele orienta e facilita a descoberta, pelo próprio aluno, de sua verdade interior. Semelhante aspecto podemos observar em Sócrates que negava saber algo e apenas inquiria as pessoas para que elas tomassem consciência de sua própria ignorância e pudesse pela maiêutica encontrar a verdade.


Conclusão


Pode parecer até injusto pegar uma obra contextual de um passado medieval e trazê-la à luz da contemporaneidade para analisá-la. Mas levando em conta que um pensamento filosófico pretende ser uma resposta universal adequada a um fenômeno, podemos ao menos tecer alguns questionamentos com vistas a soluções atuais.

Agostinho quando parte da pressuposição de que Deus tenha colocado em nós a verdade e que basta consultar esse mestre interior para que rememoremos as coisas e a reconheçamos, ele se obriga a admitir que são incompetentes ou distantes de Deus quem não consegue fazer isso. Esse tipo de inferência não se impõe como verdadeira em si mesma, mas somente se tomamos a pressuposição de Agostinho. Digamos que seja uma conclusão que “salva” a premissa e não uma conclusão conseqüente da mesma.

Esse argumento é frágil quando aventamos a possibilidade de alguém ensinar uma mentira a outro. Quando Hitler implanta a Juventude Nazista e faz uma espécie de aprendizado maciço incitando o ódio e a discriminação a milhares de jovens alemães, equivaleria a dizer então que cada ódio suscitado era uma verdade divina implantada no coração de cada jovem que aprendeu a odiar os judeus.

Logo, concluímos que o aprendizado se dá de forma diversa daquela que Agostinho pretende nos dizer. No entanto, seus argumentos são verossímeis quando percebemos que as palavras, em si mesmas e enquanto sinais, nada nos dizem sem que possamos nos referenciar em alguma experiência pré-existente ou mesmo possamos fazer um “salto” intelectivo em busca de um entendimento daquilo que é dito. Mas o entendimento de nível inteligível não indica nada além que não seja fruto de nossa própria capacidade mental, dada pelas sinapses cerebrais e ações associativas e referenciais de nossos próprios neurônios. Se essa característica vem de uma fonte extracorpórea a qual nos foi concedida, é apenas uma questão de fé.

Platão, em sua primeira fase, sob a influência determinante de Sócrates, antes ainda de ter viajado à Itália e conhecido o pitagorismo e o orfismo, ainda não havia dado um aspecto transcendente à questão das Idéias que definem os gêneros. A noção intelectiva de gêneros e espécies, que denota a Idéia de algo, parece emergir imanentemente do conjunto de aparições fenomênicas das coisas que nós percebemos. Inferimos, por convenção e dialeticamente, aquilo que não é acidente, e o definimos como algo em seu fundamento existencial.

Se o que a primeira fase platônica nos dá a entender for verdade, poderíamos dizer que a capacidade cognitiva humana que nos permite perceber o inteligível, se dá por um processo de generalização indutiva da nossa própria experiência existencial. Se isso for verdade, não percebemos as coisas a partir de sua participação em um suposto hiperurânio (ou mundo das idéias), mas sim compomos esse hiperurânio a partir das inferências de uma certa regularidade nas coisas, as quais são percebidas e categorizadas a partir dos interesses coletivos e culturais históricos.

Isso, no entanto, não exclui e nem deveria excluir qualquer participação divina em nós.


Gilberto Miranda Júnior

Notas


1 – Nome original em Latim da obra: AGOSTINHO, Santo. O Mestre. Tradução: Antonio Soares Ribeiro. São Paulo, SP: Landy Editora, 2006

2 – Oposição entre a filosofia que admite a reminiscência e os empiristas como John Locke. Essa expressão foi usada por Leibniz para ilustrar as idéias dos partidários de Locke que supunham que no começo a alma é vazia de todas as idéias. Cf (LALANDE 1999, Verbete Tábua Rasa - p. 1.104)

3 – Cf. (MEDINA 2007, p. 108)

4 – (HORN 2006, p. 6)

5 – Conf. (AGOSTINHO, Confissões 1996, Parte I - Livro IX n.14 - p. 237), onde se lê: “Há um livro meu que se intitula De Magistro, onde ele (Adeodato) dialoga comigo. Sabeis que todas as opiniões que aí se inserem, atribuídas ao meu interlocutor, eram as dele quando tinha dezesseis anos. Notei nele coisas ainda mais prodigiosas. Aquele talento causava-me calafrios de admiração, pois quem, senão Vós, poderia ser o artista de tais maravilhas?


Bibliografia


AGOSTINHO, Santo. Confissões. Tradução: J. Oliveira Santos e A. Ambrosio de Pina. São Paulo, SP: Nova Cultural, 1996.
—. O Mestre. Tradução: Antonio Soares Ribeiro. São Paulo, SP: Landy Editora, 2006.

HORN, Christoph. “AGOSTINHO – TEORIA LINGÜÍSTICA DOS SINAIS.” Edição: Luis Alberto De Boni. Veritas (Programa de Pós-Graduação em Filosofia - PUC RS) v.51, n. n.1 (Março 2006): p.5-17.

LALANDE, André. Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia. 3ª Edição. Tradução: Fátima Sá COrreia. São Paulo, SP: Martins Fontes, 1999.

MEDINA, José. Linguagem : Conceitos-Chave em Filosofia. Tradução: Fernando José R. da Costa. São Paulo, SP: Artmed, 2007.