O Discurso do Método – Descartes (resenha temática)


Por Gilberto Miranda Júnior



A Construção da epistemologia cartesiana

E sua contextualização histórica a partir da obra O Discurso do Método.


Esse trabalho, embora se refira a um livro específico, procura enfatizar o fundamento epistemológico do pensamento cartesiano, embora resenhe parte da obra em questão.

A obra de Descartes, mais especificamente o seu Discurso do Método pode ser vista como uma sistemática reflexão sobre seu tempo através de uma tomada de posição específica frente a uma crise que, a partir de seu posicionamento, inaugurou uma nova epistemologia e uma nova maneira de olhar a realidade.

É preciso assumir uma perspectiva hermenêutica na leitura da obra de Descartes a partir do momento em que sua época se desprendia de uma visão de mundo centralizada na autoridade e no poder centralizado da religião. Porém, essa perspectiva hermenêutica não pode deixar de levar em conta que o que ele pensou também foi assumido pela tradição como forma de conciliar os dogmas religiosos com a ciência que despontava na modernidade. Necessário é salientar que foi um processo gradual essa conciliação.

Assumindo, de certa forma, o espírito humanista de sua época e centralizando-se na capacidade racional humana na busca do conhecimento, Descartes preocupou-se fundamentalmente em construir um modo para que pudéssemos chegar a um conhecimento seguro. Esse modo é a dúvida, o seu método, o caminho.

Para esse objetivo, notamos que ele incorporou o espírito que se formava na época e diferenciou seu discurso dos tratados filosóficos medievais impessoais e abstratos, escrevendo na maioria das vezes na primeira pessoa e exemplificando suas idéias a partir de suas experiências pessoais.

Seu estilo pessoal, quase confessional, mescla sentenças de cunho afirmativo-perceptivo de caráter universal e logo em seguida é justificada sua validade a partir da narrativa de sua experiência pessoal racional. Vemos esse exemplo nesse trecho:

As maiores almas são capazes dos maiores vícios, como também das maiores virtudes, e aqueles que só andam muito devagar podem avançar bem mais, se seguirem sempre pelo caminho reto, do que aqueles que correm e dele se afastam.

Quanto a mim, nunca cheguei a supor que meu espírito fosse em nada mais perfeito do que os dos outros em geral. Muitas vezes cheguei mesmo a desejar ter o pensamento tão rápido, ou a imaginação tão nítida e diferente, ou a memória tão abrangente ou tão presente, quanto alguns outros.” (DESCARTES 2006, p.13)
É com esse tom pessoal e de certa forma intimista, embora tente sempre universalizar os conceitos que decorram de seu raciocínio pessoal, que Descartes começa seu Discurso do Método, a meu ver, com uma das frases mais emblemáticas da modernidade; não tanto por seu caráter axiomático, mas por seu caráter aforístico:

O bom senso é a coisa do mundo mais bem distribuída, porquanto cada um acredita estar tão bem provido dele que, mesmo aqueles que são os mais difíceis de contentar em qualquer outra coisa, não costumam desejar tê-lo mais do que já o têm.” (DESCARTES 2006, p.13)
Descartes usa esse enunciado para argumentar a idéia de que todos são dotados igualmente de razão e que só chegam a opiniões diferentes por que não possuem um método adequado. É claro que, embora aforisticamente seja interessante, é difícil imaginar que cada homem não veja necessidade de ter mais bom senso do que julga ter como evidência de que todos de fato tenha. Mas essa idéia se configura como pedra basilar de um consenso que se forma na época, já formulado no final do medievo por Nicolau de Cusa: o homem seria um microcosmo, reproduzindo em si, sinteticamente, a totalidade da natureza.

É com esse mote que, na modernidade, Descartes introduz a temática do sujeito que conhece como fundamento de sua epistemologia. Essa temática irá deslocar o questionamento sobre o Objeto que se mostra a uma razão capaz de captar a ordem efetiva das coisas para o Sujeito que volitivamente se direciona para o Objeto na intenção de captar essa ordem. A preocupação moderna, inaugurada por Descartes é como esse Sujeito pode assegurar um conhecimento verdadeiro e seguro do Objeto.

Descartes então parte da premissa que, antes de voltar-se ao Objeto, esse Sujeito precisa voltar-se para si mesmo e fundamentar nele a possibilidade desse conhecimento.

- Quem é esse sujeito que conhece?
- Quais suas potencialidades e limitações?
- É possível sair do ceticismo e alcançar a verdade sobre algo?

Eis os pontos tematizados a partir de Descartes em seu Discurso do Método.

A perspectiva ontológica que Descartes tematiza sobre o Sujeito do Conhecimento só seria abandonada pelo empirismo e depois por Kant. Descartes confia na capacidade fundante da Razão como possibilidade de conhecer e descarta a possibilidade de qualquer conhecimento seguro a partir do sensível, reeditando a tradição iniciada em Platão.

Embora Descartes liberte a epistemologia da fundamentação teológica, centralizando no racionalismo toda a nossa possibilidade de conhecimento (inclusive o teológico), ainda postula uma participação divina em nós, e a exemplo de Platão, separa o Sujeito em duas instâncias substanciais que formam o Ser Humano: a res cogitans e a res extensa. A fundamentação racional desse dualismo contribuirá para avanços científicos, onde a noção de corpo como uma máquina a serviço da alma racional, irá proporcionar a permissão para autópsias, por exemplo.

Descartes chega a seu método assumindo uma postura cética, porém postula um ceticismo que não duvida para negar, e sim para chegar através da dúvida metódica ao verdadeiro conhecimento. Seu método estabelece que tanto os sentidos quanto a percepção não se configuram como um conhecimento seguro, e estabelece o caminho para esse segurança por quatro preceitos básicos:

1. Evidência: aquilo que aparece imediatamente ao entendimento;
2. Análise: divisão do problema em partes menores;
3. Síntese: ordenar o pensamento do mais simples ao mais complexo;
4. Evidência do Conjunto ou Intuição Geral: enumeração dos dados e revisões gerais.

O caminho cético proposto por Descartes procura desestruturar a própria postura cética ao usar o ceticismo para buscar algo que fundamente a possibilidade do conhecimento seguro. Ela, portanto, é propedêutica. Para isso ele cria o argumento do Cogito, cujo objetivo é estabelecer os fundamentos do conhecimento e encontrar uma certeza imune a qualquer questionamento cético.

Propondo esvaziar-se de todas as crenças e conhecimento adquiridos, Descartes encontra a questão que garante a certeza segura de algo: “Penso, logo existo”. A existência, a partir dessa constatação, se torna a pedra basilar da certeza de que podemos conhecer de fato algo sem qualquer tipo de questionamento que possa negá-lo: se soubermos que pensamos, é por que necessariamente existimos.

O Cogito, portanto, a partir da descoberta de uma realidade primária, necessária e indubitável, nos dará a base para a construção do conhecimento possível humano. A existência de Deus, para Descartes, a partir da constatação do Eu Penso, se circunscreve a partir da idéia que temos dela.

É com essa constatação que Descartes chega à seu Argumento Ontológico: sendo o único método possível de conhecimento a dúvida metódica, duvidar é menos perfeito que conhecer. Ao não possuirmos um conhecimento direto que nos exime da dúvida como método, só poderíamos ter idéia da perfeição se houvesse alguma natureza que fosse mais perfeita e acima de nós. Essa natureza seria Deus. Não sou só eu que existo, pois não sou perfeito e se tenho idéia da perfeição, além de mim devem existir outras coisas.

A ponte entre o pensamento subjetivo na busca de uma certeza indubitável e o pensamento objetivo que pode proferir conhecimento sobre um objeto está na fundamentação última da realidade que independe da experiência sensível, isto é, na razão pura inata. Só haverá ciência quando a razão puder explicar através de leis e princípios indubitáveis como a realidade se configura e funciona. A ponte para fora de si mesmo e o rompimento com o solipsismo no pensamento cartesiano é sua argumentação sobre a existência de Deus. Deus existindo, as coisas existem fora do meu pensamento, e é caminhando em direção a Deus através de minha razão é que posso conhecer as coisas.

Nesse ponto há uma crítica à escolástica aristotélica que preconizava chegarmos a Deus através do sensível. Descartes na continuidade de seu livro ainda fala e discorre sobre a alma e o corpo, o homem e o animal, fechando seu discurso num apelo aos leitores.

Nunca mais a ciência seria a mesma com a publicação do Discurso do Método de Descartes, embora o empirismo fosse dar um caráter comprobatório mais robusto ao conhecimento possível humano.




Referência


DESCARTES, René. Discurso do Método. Tradução: Ciro Mioranza. São Paulo, SP: Editora Escala, 2006.